sexta-feira, fevereiro 13, 2009

DICA DO VICO:

O MELHOR CAMINHO

Xico Graziano, publicado no Estadão em 10.02.2009

A erosão das terras agrícolas configura uma verdadeira tragédia ecológica. O solo, patrimônio da Humanidade, se esvai na força das chuvaradas. Muitos culpam o agricultor pelo fenômeno. As estradas, porém, representam um grande vilão.

Agrônomos conservacionistas estimam que até 50% da perda de solos em certas regiões paulistas são provocadas pela água canalizada no leito das estradas rurais. Quem já trafegou pelos campos, naqueles caminhos esburacados e bem empoeirados, entende fácil a razão.

Basta se lembrar dos elevados murunduns que cerceiam a via nas suas beiradas. Eles delineiam o trajeto como se definissem um rio seco. Quando chegam as torrenciais chuvas, essas altas laterais impedem que as enxurradas d’água se dispersem, canalizando-as sempre rumo à descida. Aqui mora o terrível problema.

Quando naquele lugar surgiu a estrada, os veículos certamente passavam no mesmo nível da paisagem. Inexistiam os barrancos. A cada chuva, entretanto, forma-se um barreiro danado.

Vem a máquina da prefeitura e aplaina o chão, retirando a terra solta. Passam os anos. O leito carroçável vai devagar se aprofundando, encaixando-se no terreno. A motoniveladora apenas penteia a estrada.

Um erro técnico básico se comete nesse processo de mecanização. Geralmente não se constroem saídas para esvair a água da chuva. Resultado: impedidas de escorrer pelo terreno, as enxurradas se canalizam dentro da estrada, avolumando-se e se tornando violentas. Quando encontram, finalmente, um sangradouro, elas descem a ribanceira destruindo o solo e derrubando o que encontram pela frente. Enormes voçorocas fendem os campos, como se cicatrizes exibissem a natureza vilipendiada.

O mal se corta pela raiz. As idéias conservacionistas, com ênfase na estrada rural, inspiraram os agrônomos da Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo (Codasp) a desenvolverem, em 1997, um excelente programa, chamado “Melhor Caminho”. Sucesso total.

O programa engloba um conjunto de técnicas de mecanização agrícola, com o objetivo de impedir que as estradas favoreçam a formação das enxurradas. Começa por arrebentar os barrancos laterais, abrindo as portas para a saída da água de chuva. Canaletas se implantam para facilitar o escoamento. E na saída desses “bigodes”, como os apelidam o agricultor, constroem-se, afundados no terreno, grandes buracos que funcionam como caixas d’água, capazes de reter a enxurrada.

Dois efeitos fantásticos se conseguem com a técnica: primeiro, cessa o estrago causado pelas águas pluviais, seja na própria estrada, seja nos terrenos erodidos onde se esgotam. Segundo, a água retida nas caixas laterais se infiltra vagarosamente no solo, alimentando o lençol freático. As nascentes agradecem.

O Programa Melhor Caminho, administrado pela Secretaria Estadual da Agricultura, já consertou, em 11 anos, 6 mil quilômetros de vias secundárias em quase todos os municípios paulistas. Milhares de agricultores presenciaram os enormes tratores da CODASP realizarem autênticos milagres nas estradas de chão, substituindo acessos quase intransitáveis por modernas estradas. Sem asfalto, mas com boa tecnologia, perenizadas.

Agricultor acredita em São Tomé, ver para crer. No início dos trabalhos, se assustam. Mas depois alardeiam a mudança verificada antes e depois do Melhor Caminho. O testemunho é dado por quem sofre há décadas, esquecidos, acostumados a esperar dias até limpar o sol, para desencalhar seus veículos atolados naqueles terríveis lodaçais. Na vizinhança, cercas novas substituem o velho arame farpado, embelezando a paisagem. Melhora o transporte, valoriza a agricultura, protege o meio ambiente.

O impacto positivo do Melhor Caminho se revelou recentemente nos bairros Palmitalzinho e Palmeirinha, localizados na divisa entre os municípios de Regente Feijó e Inhumas, lá na região de Presidente Prudente. Um grupo de 120 pequenos produtores rurais acaba de ser contemplado com as obras inauguradas na cabeceira do Rio Santo Anastácio, beneficiando 30,1 km de vias de terra, até então totalmente deterioradas.

Os técnicos da Codasp estimam, neste projeto recém executado, que a infiltração de água, graças à sua contenção nas caixas laterais da estrada, permitirá elevar a vazão daquele manancial em 28,5 l/s, quantidade capaz de oferecer água sobressalente para 12500 pessoas. O Rio Santo Anastácio começa a reviver. Fantástico.

Na seqüência dos trabalhos de mecanização agrícola, as Secretarias estaduais de meio ambiente e da agricultura, junto com as prefeituras locais, UNESP de Presidente Prudente e DAEE, começaram a promover a recuperação das matas ciliares daquela microbacia hidrográfica. Milhares de mudas nativas serão plantadas às margens dos riachos e das nascentes, auxiliando a regeneração natural do ecossistema.

Nenhuma ação se configura mais necessária, hoje, no interior de São Paulo, que recuperar a vegetação surrupiada equivocadamente no passado, especialmente aquela que margeia os mananciais. Sem o colchão protetor formado pela vegetação ciliar, a erosão dos solos desaba diretamente nos corpos d’água, assoreando-os. Córregos onde no passado os agricultores se deliciavam na pesca dos lambaris e piavas, desgraçadamente hoje são atravessados à pé, com água na canela. Fora a poluição.

O Melhor Caminho provoca uma pequena revolução na roça. Crianças deixam de perder aula na época das chuvas. Agricultores escoam sua safra sem medo do atoleiro. Prefeituras economizam na manutenção das estradas. Mananciais param de sofrer com o assoreamento. Enchentes desaparecem.

Fim da erosão. Início da agricultura sustentável.

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Realmente, as estradas feitas pelo programa Melhor Caminho são de tirar o chapéu. Uma beleza. Quem quiser conhecer é só andar um 4 ou 5 km, até o Portão Preto, na estrada que liga o Miguelzinho ao bairros Barra, Pintos etc, que foi feita no final de 2004.

Pena que a Prefeitura de Itapeva não tenha, digamos assim, entendido o princípio da coisa. Os meninos lá da garagem continuaram raspando a estrada, como sempre fizeram, até que, em muitos pontos, a estrada rebaixada (pelas raspagens) não mais permite que a enxurrada alcance o nível e saia para as bacias laterais.

Meu Deus, eles, parece, não entenderam a nova tecnologia e continuam raspando, raspando (e rebaixando a estrada) onde deveriam, se necessário, colocar terra, para que não ocorresse desnível entre o leito da estrada e as bacias laterais que captam a água.

Uma barbaridade sem tamanho: a Prefeitura está neutralizando as bacias captadoras feitas pela CODASP. Resultado desastroso: a enxurrada está voltando a correr pelo meio da estrada!

Os engenheiros Cavani, Xixo e Cassiano bem que deveriam dar umas dicas lá pra turma da garagem, não é mesmo? Acho que eles não entenderam...

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